Ensaio sobre a solidão – Parte 1: O esboço de um bar

by matheuslopers

O mal do século é a solidão. As baladas estão lotadas de gente de boa, gente egoísta e gente supérflua desejando alguns instantes de sua atenção e quem sabe instantes de seu beijo, de seu corpo para se sentir único na multidão, para se sentir especial para alguém. Vive-se no século do se exponha, se mostre e se venda para o outro, mas não ame ou ame desacerbado em uma tentativa de se encontrar, pequeno ser humano com uma bexiga no peito.
Dance, beba, exploda sua cabeça, não lembre disto amanhã, goze qualquer um ou goze aquele que seu amigo, e inimizade, irão sentir inveja. Em cada pessoa sob o pálido luar você encontra um sonho de ser algo em alguém, mesmo que seja algo só entre suas coxas por algumas horas, ou encontrar alguém que não seja só isso.
Vive-se em um mundo dos conectados, dos integrados, das relações liquidas, das relações do instante. Uma informação de cinco minutos atrás é tão desatualizada e o ‘eu te amo’ de ontem não representa mais nada. Então, vão jovens e senhores para rua tentar de alguma forma preencher um espaço que há todos nós, que alguns chamam de “vazio existencial”, mas minha vizinha diz que só deus, um homem ou divindade, vivo ou morto – não sei – conseguiu preencher o dela. Já meus amigos, visitantes e desconhecidos avisam que algumas cervejas, uma maconha, música alta e algo que lhe tire a razão é suficiente até o próximo final de semana. Sinceramente, quem sabe o que realmente irá me preencher? Posso parecer idiota para você, leitor solitário, mas acredito no amor, acredito que um dia alguém irá olhar além do escuro da minha pele, do meu sobrepeso e conseguir enxergar o quanto de prazer e felicidade podemos compartilhar no nosso mundo.Sei também que podem ser ainda alguns sonhos juvenis, mas vou lutar por eles até o fim. Por hora, vivo em um mundo lúdico, no qual não me vendo, feito carne em frigorífico, em aplicativos de sexo gay, não preciso beber para ser feliz e no sexo tento transmitir algo além de saliva e gozo, transmito uma parte de mim – Vai que eu consigo preencher você? – e assim levo uma vida que nunca pedi, porém prefiro ter.
O que é melhor: ser só sozinho ou ser sozinho numa multidão? E esta questão é tudo sobre os dias de hoje, o tempo moderno, a geração instagram, a geração das redes sociais, mas tudo dessocializada, gritando os pais em casa e traindo o namorado(a) na balada. Afinal ninguém consegue me preencher, eles(as) não precisam de você, uma falsa alto-suficiência e roupas de marca é o novo preto. Eles, as divas ou macho-ativo-com-local, são melhores que você.
Você terminou esse texto com um parecer, achando que sou louco, talvez depressivo e, com certeza, acha que não sei escrever. Mas tente ver por cima da casca, leia minhas entre linhas e me responda as questões: você vive a vida que queria? Você já tentou amar alguém que não tivesse em seus padrões? Qual é seu vazio e como você acha que preenche? Não dei resposta de nada, joguei palavras no ventilador. Sou mais um dessa geração sangrando solidão do peito vazio e chorando, pois nunca ninguém me amou. Sól…

(volto para meu livro do Saramago e uma setilist de Radiohead e Cassia Eller)