A lebre branca e o negro lobo

by matheuslopers

Eu estive cego, mas agora eu posso enxergar
Vaguei pela floresta cinza a procura da carne não oferecida
Não preciso de aplicativo social para me dessocializar
Homens amarrados em redes se oferecendo aos lobos (vocês são)
Eu preciso cravar meu dente em seu peito até o sangue correr
Sentir em minha boca o latejar
Com minha presas desafiar o pulsar do seu coração
Entre os sussurros, gritos e murros você  irá desejar saciar minha sede
Desejar se dar para saciar minha fome
Desejar ser meu sacrifício final.

Você amaria o que há de pior em mim?
Você amaria quem realmente sou?
Talvez eu esteja apaixonado pela besta (ou ela sou eu?)
Sou o filho do deus que não existe
Filho do apocalipse que nunca virá
Começa e termina todos os dias com teu sangue em minha boca
E a satisfação no teu olhar.
E quando você não está comigo mordo minha língua
E quando você não está comigo eu faço o seu sangue correr em mim
Pensando em você
Em dilacerar sua carne
Em consumir o que há de pior em você até conseguir me completar.

Os orixás não vão salvar sua alma
Agora não há para onde correr
Eu sou o pagão que um dia você batizou
Eu sou o lobo de um mundo sem caçador
Você é a lebre que um dia meu caminho cruzou
E agora vivo no anseio de dilacerar seu peito
Deixar sua alma dependente do meu corpo
E deixar seu corpo dependente do meu anseio
No meu leito você  irá jorrar lágrimas, medo, tesão e respeito
Em meu colo viver, implorando para morrer.

Você não é como os outros que se oferecem em redes
Você não é como as outras lebres se oferecendo na noite
No inverno eu quero tirar sua pele e vestir
Afinal, você é a lebre nascida para mim
Quero te amar pelo pior em você
E odiar pelo melhor de você em mim
O gosto de carne cravado na minha língua
O seus pelos preso em meu suor
E finalmente o sangue da lebre branca beber
A lebre que ama o lobo
A caça  que ama o caçador.
Se ofereça para mim e me mostre o teu calor.

No pálido luar deixarei seu sangue correr
Manter você vivo, gemendo e ansiando pelo teu morrer
E quem será louco de me dizer o limite entre a morte e o prazer?
Eu quero dilacerar você!
Entrar em você!
Ser teu intrínseco!
Tu és a lebre branca que ofereço em sacrifício
Tu és o pálido luar brilhando em minha direção
E eu sou o lobo que te mata e uiva para você.